Oscar D’Ambrósio

Entrevista à Oscar D’Ambrósio – Abril de 2005

 

Oscar D’Ambrósio: Influências que você julga essenciais para a sua carreira.

Sônia: O artista é tocado por tudo que vê. Desde cedo, ainda criança, começamos a nos envolver com a arte de uma maneira lúdica e intuitiva. Hoje, no meu trabalho, a brincadeira e a alegria infantil são as influências remanescentes desta época, mostrando a minha personalidade, onde a realidade se mistura ao sonho e à fantasia.A personalidade artística, tão importante e que caracteriza a obra e o reconhecimento de um artista, foi sendo forjada intuitivamente aos poucos, e por uma questão de identidade (surrealista) posso citar De Chirico, Magritte, Max Ernst e naturalmente, o maior surrealista de todos os tempos: Salvador Dalí. Indo mais além e retrocedendo no tempo mas nunca esquecendo que embora às vezes eu me utilize de elementos e temas do passado, a minha obra reflete o presente, posso citar também artistas que com eu retratavam a sua época, como Jan Vermeer, FransHals, Bruegel e Canaletto.

Oscar D’Ambrósio: Como foi o seu início nas artes plásticas?

Sônia: A arte entrou em minha vida da maneira mais prosaica e lugar comum. Através dos livros de história, dos cadernos para colorir, da música, do teatro infantil. Este envolvimento na infância é quase imperceptível, mas infalível e só alguns escolhem esta trilha por uma questão de talento ou de uma grande sensibilidade.Tive a sorte de também quando muito pequena (8 ou 9 anos) ter despertado a atenção de uma professora que orientou meus pais para que procurassem uma escola de arte. A partir daí, embora a consciência de que esta seria a minha profissão tenha vindo bem mais tarde, a arte ficou sempre ao meu lado em quase todas as fases da minha vida, mantendo acesa a chama da “criança” e da magia das cores em mim. Através de Luiz Portinari (irmão de Cândido Portinari) já na faixa dos 20 anos, pude descobrir a minha identidade artística e tive a coragem (ela é muito necessária nesta atividade) de partir para o mundo profissional. Fiz a minha primeira exposição individual em 1989 e não parei até hoje.

Oscar D’Ambrósio: Você vive só de sua atividade artística ou tem outra profissão ou atividade?

Sônia: Considero-me uma das privilegiadas nesta profissão por conseguir viver exclusivamente do meu trabalho.

Oscar D’Ambrósio: Alguém descobriu você para a arte ou ajudou a desenvolver o seu trabalho?

Sônia: Tive a ajuda de muitas pessoas ao longo do tempo. Desde aquela professora da escola primária até as pessoas maravilhosas de hoje, que embora empresários atarefados com a sua própria atividade, encontram na arte e no estímulo à arte um oásis de prazer e realização. É o caso da amiga Amália Sina que está, como conselheira, me ajudando a levar a minha arte a buscar um novo horizonte, muito mais profissional e portanto realizador.

Oscar D’Ambrósio: Como você define e caracteriza o seu trabalho?

Sônia: Não só, mas também como surrealista. O surrealismo tem como principais características trabalhar o subconsciente e valorizar a espontaneidade plástica. Levando a imaginação além dos limites, mostra a importância do inconsciente na criatividade do ser humano.

Identifico-me também com o Realismo Fantástico de Gabriel Garcia Marques, de Mario Vargas Llosa, de Borges. Principalmente porque a obra deles vem carregada de humor, que é quase uma constante nos meus quadros.

Oscar D’Ambrósio: Quais são os seus planos para os próximos anos?

Sônia:O meu livro, a exposição individual, desenvolver mais o Projeto Dueto, que é um trabalho voltado às empresas que querem ver a sua história “contada” através de imagem, a continuidade e o crescimento na área de licenciamento como os puzzles da Stave Puzzles – mais importante e sofisticada empresa de quebra-cabeças do mundo, a exposição itinerante pelo Brasil. Estes são itens de todo um posicionamento que tenho estruturado para este e os próximos anos. É muito trabalho, mas sempre traz muita realização e prazer.

OscarD’Ambrósio: Qual é a sua formação religiosa? É importante para a sua obra?

Sônia:O artista é tocado por tudo que vê, vivencia e sente. A sua obra é ele e todas as informações e experiências que teve na vida. A minha família é católica. Eu não sigo a religião, mas sim certos preceitos (que estão presentes não só na religião católica como também em tantas outras) como fazer o bem, ajudar o próximo, ter compaixão, etc.

Oscar D’Ambrósio: Você tem alguma temática preferida? Qual? Por quê?

Sônia: As ideias vão surgindo a partir de acontecimentos do dia a dia. Dos objetos que uso para o trompe l’oeil como as costas das molduras e livros antigos, surgiram respectivamente a fase sobre Veneza/CommediaDell’Arte e minha mais recente fase sobre livros de arte. Mas para que o ofício da pintura seja mais dinâmico e interessante, quadros com temáticas diferentes.

Oscar D’Ambrósio: Há etapas definidas em sua carreira? Quais são?

Sônia: Levando-se em conta os temas, sim. No aspecto pictórico e o que chamo de personalista, quando se define o estilo do pintor, só houve uma mudança mas antes mesmo de iniciar a carreira profissionalmente.Naquela época, eu fazia um surrealismo muito mais agressivo. Com o tempo, a agressividade deu lugar ao humor, também presente nos trabalhos dos grandes surrealistas, com Marcel Duchamp.