Jornal O Globo

Entrevista ao Caderno Ela do Jornal O Globo – Alívia Breves, Maio de 2014

 

Alívia Breves: Quando começou o seu interesse na arte? Você comentou que a sua formação é como designer.

Sônia: Desde pequena, embora as crianças sempre se expressem através da arte, com música, pintura. Na verdade comecei como pintora, que ainda sou, mas o artista contemporâneo tem que se reinventar todos os dias (o mercado pede) e tentar todos os estilos, mídias e possibilidades. O design começou como Arte Aplicada, que está bombando em todo o mundo e também aqui. Hoje já estou desenvolvendo peças em porcelana (sempre baseadas em meus originais em linho) e partindo para o mobiliário. O que me falta é tempo para fazer tudo isso.

Alívia Breves: Conte um pouco da sua relação com Luiz Portinari. Qual foi o principal conhecimento que você adquiriu com ele?

Sônia: O Lói, apelido que tinha, sempre terá um lugar especial no meu coração. Ele sabia como respeitar o espaço do aluno, analisando um a um e tratando cada um de forma diferente. Comigo, como viu que eu era superindependente, jamais tocou em uma obra minha e dizia que a pintura estava “bem ruinzinha” (risos) e dava a dica de como melhorar. Daí, era comigo, tinha que me virar! A série chamada “Livros Objeto”, que estou pintando hoje, tem muito a ver com o método dele para descobrir o aluno, do que ele gostava. Na escola, tinha uma mesa muito grande, cheia de fascículos e livros de pintores famosos. Ele pedia para você escolher um pintor e aí você mesmo já dava o caminho para a descoberta. Naquela época tinham obras que eu jamais conseguiria replicar; hoje com os anos passados e técnica, consigo fazer. Nesta série desenvolvo livros cortados no formato, quase esculturas e as obras retratadas são aquelas daquela época, que não conseguia reproduzir.

Alívia Breves: Como a Família Real Britânica conheceu o seu trabalho?

Sônia: Foi através de um projeto meu chamado “Dueto”.  O CEO da Leonard Cheshire Foundation (na obra retrato a história de um herói nacional da Inglaterra, Sir Leonard Cheshire) da época que era muito amigo do curador da Royal Collection, uma das coleções de arte com maior prestígio no mundo, comentou a meu respeito, sobre a obra, uma coisa levou à outra e por fim, depois de um longo processo de seleção, a obra foi aceita na Royal Collection.

Alívia Breves: Você tem um ritual muito específico de pintura. Além de fazer as próprias tintas, ainda passa gesso na tela. Faz isso desde quando? Alguma outra particularidade?

Sônia: Tudo isso faz parte de uma técnica, flamenga. No início é quase que um trabalho artesanal. Precisa de tempo e paciência, mas este processo tão visceral com a produção, com a própria tela, que é a base de tudo é muito bacana. Uso esta técnica desde que me profissionalizei.

Alívia Breves: Você faz os quadros originais lentamente e as gravuras e outros objetos para ter uma produção também comercial. E você foi bem além do papel: tem almofadas, pratos… Você gosta de variar as superfície e de ver a sua obra tanto em uma parede, em espaço de destaque em uma galeria ou uma casa, quanto num canto de um sofá? 

Sônia: Aprendi que na arte não se deve ter preconceito. Pessoas que tem os meus originais compram os pratos, gravuras, almofadas, e algumas que começaram com pratos, gravuras fizeram um upgrade para os originais. Se as barreiras não forem quebradas, o discurso da “arte elitista” se esvazia.Art for all! Mesmo que seja a arte aplicada.

Alívia Breves: Sua arte é para divertir, você gosta quando acham graça. Me fale um pouco do motivo que te leva a buscar isso nas pessoas.

Sônia:Isso foi intuitivo! Está muito na minha obra. Na vida normal não sou tão divertida assim (risos).  O que acho mesmo (aliás cada vez mais) é que o convívio com a arte dá prazer, traz alegria. As feiras de arte aqui e no mundo se transformaram em verdadeiras Disneylands. Nada contra; muito pelo contrário. A maioria das pessoas que estão lá não são compradoras; estão lá para ver, para sorver, para se divertir mesmo.

Alívia Breves: Que artistas contemporâneos admira?

Sônia: Murakami, Joana Vasconcelos, Adriana Varejão, Sandra Cinto. Mas meu gosto é bem eclético. Gosto de pesquisar, procurar e curtir o que há de bom em cada artista, mesmo o desconhecido.

Alívia Breves: O que gosta de fazer quando não está pintando?

Sônia: A maior parte da minha vida é vivida no ateliê ou em volta do assunto arte. Quando não estou no ateliê gosto de fazer as coisas “normais”; restaurantes, teatro, shopping, Oscar Freire.

Alívia Breves: Me fale um pouco das joias?

Sônia: De desafio em desafio a gente vai evoluindo e melhorando na carreira num todo. Com o design de joias foi assim: uma feliz coincidência porque os proprietários da joalheria (os filhos estão à frente agora) já são admiradores de arte e tinham obras minhas. Recebi o convite, fiquei um bom tempo tentando fazer com que os desenhos tivessem tridimensionalidade (o que é bem difícil para quem não faz escultura) e finalmente, depois de um bom tempo, consegui desenvolver algo usando o conceito de mini esculturas confeccionadas com matérias nobres, ou… joias! Como gosto de pesquisar e contar histórias, criar coleções temáticas e personagens, como Maria Antonieta, foi muito gratificante.

Alívia Breves: Por que você gosta tanto da Maria Antonieta? O que precisa para virar um personagem da sua obra?

Sônia: Há personalidades icônicas na história da humanidade e ela com certeza é uma. Para mim ela foi, na época da Revolução Francesa, o que é Madona hoje. Tem muita coisa que remete à ela: na moda com as perucas e sapatos, na culinária com os macarons e embora fosse uma rainha austríaca, está diretamente ligada à França. Hoje estou pensando em retratar algo bem brasileiro: Maria (outra Maria) Bonita e Lampião. Há história por trás destes personagens e isto me encanta.

Alívia Breves: Você está em Moscou participando da “A Arte Brasileira Invade Moscou”? Onde estão as suas obras aí? Que obras levou?

Sônia: Este foi um projeto muito bacana, idealizado por Gilson de Andrade de Freitas (LBR – ENGENHARIA E CONSULTORIA LTDA, patrocinadora da maior parcela do projeto), um advogado apaixonado por arte. Na Rússia existe o que eles chamam de “Semana do Museu” e a abertura da exposição foi no sábado, penúltimo dia desta semana que marca o início da primavera. Todas as galerias e museus fazem ações e exposições importantes neste período e o número de pessoas que comparece é fabuloso! A exposição está em uma galeria estatal (muitas lá são) Na Kashirke e ficará até o final do mês. Estou com 6 obras lá.

Alívia Breves: Além de quadros, pratos, joias, já fez mais que objetos?

Sônia: Bom, para variar, tenho à frente mais projetos e mais novidades. Objetos de design (já a caminho) inspirados nas minhas obras que são flat, (os originais em linho) e linha de mobiliário, que ainda está no papel. Acredito que os objetos já participarão da Design Weekend, importante evento do segundo semestre aqui em São Paulo. Entretanto, estou pronta para outros desafios!! Quem sabe o que ainda está por vir? O importante é me encantar por algo que me faça trabalhar, com entusiasmo, por mais de 10 horas ao dia.

Alívia Breves: O que é a “técnica mista” que você menciona?

Sônia: Até um tempo atrás só tinha os originais em linho e as giclées, que são reproduções assinadas e numeradas fiéis das obras, em papel ou tela. Senti que havia um gap grande entre elas e que o novo comprador de arte estava ficando sofisticado a ponto de querer algo com o toque pessoal do artista (a pintura) com um preço mais acessível do que o original em linho. Lembrando do que fazia nos EUA quando tinha representação lá, criei a minha técnica mista. Para cada imagem já realizada (o original em linho) crio 15 versões, cada uma pensada particularmente, depois pintada na novas áreas, criando assim um novo original. Cada uma tem um novo nome e são assinadas e não numeradas, por serem peças únicas.

Alívia Breves: Vi no Facebook que você fez bordados. É para futuros trabalhos ou ainda é um experimento?

Sônia: Isso foi engraçado. O bordado não é bordado de verdade, com tecido e linha, mas sim a pintura de um bordado! Ri muito com a surpresa das pessoas perguntando se estou também bordando agora, o que não é má ideia. Vi agora em Moscou na Galeria Tretyakov, uma obra da década de 20, toda em tecido bordado! Me encantei com a contemporaneidade da peça!

AlíviaBreves: Me conte algumas galerias, pessoas e projetos que tem obras suas?

Sônia: Aprendi na época que trabalhava com uma galeria em NY (assinei um contrato que me impedia de divulgar) a não mencionar quem tem obras minhas. Nem todos gostam. Tenho uma obra na Royal Collection da Família Real Britânica, o que é o máximo. A cerimônia de entrega da obra na sala principal do Palácio de Buckingham foi surreal. Fiz, também, uma obra para comemorar os 60 anos do UNICEF aqui no Brasil, o que me deixou muito feliz. Trabalho com algumas galerias aqui em São Paulo, mas nenhuma com exclusividade.

Alívia Breves: Você já expôs aqui no Rio?

Sônia: Ainda não. Gostaria muito.

Alívia Breves: Qual a próxima exposição?

Sônia:Depois de Moscou, na área de arte não há nada programado. O início do segundo semestre será dedicado ao design, com as feiras importantes, a Design Weekend e tudo o que gira em torno disso.