Fernando Figueiredo

Entrevista à Fernando Figueiredo – Junho de 2010

 

Fernando Figueiredo: Sônia, acompanho a tua carreira já há alguns anos e algo sempre me intrigou, os teus quadros na grande maioria parecem como cenas perdidas no tempo, como uma lembrança do passado que se movimenta. O que os temas representam para você? Como você os escolhe?

Sônia: Mas não é o que se fala sobre os mundos paralelos? O que aconteceu há séculos atrás, pode, num mundo paralelo, estar acontecendo agora com o acréscimo das informações novas de hoje. Um mundo meio Alice in Wonderland, que sempre adorei. Por isso que se vê em minhas obras, por exemplo, personagens holandeses (informações do passado) que dialogam numa mesma cena com cartas de baralho, máquinas “caça níqueis”.

Fernando Figueiredo: De onde vem as ideias???

Sônia:Cada artista é impactado pelo que ouve e mais pelo que vê (como no meu caso) de forma diversa. Eu sei que a frase é antiga, mas é válida: ” Só Freud explica”. Existe um mecanismo no meu cérebro de artista que escolhe as imagens que vão me impactar. O resto eu deixo acontecer, sem me preocupar muito (a princípio) com o porquê.

Fernando Figueiredo: E a figura do Mezzetino? Ela é recorrente nas tuas telas, ele tem algum significado ou seria talvez um mestre de cerimônias que está para nos apresentar cada cena?

Sônia:Esta figura chegou até o meu universo pictórico através de meios tortuosos. A CommédiaDell’Arte sempre me encantou e na época que estava fazendo a pesquisa da série “Veneza”, descobri este personagem que além de Mezzetino, tem também outros nomes, como Arlequino, Pulcinella. Ele realmente encarna um pouco do meu espirito criativo, pois na CommédiaDell”Arte o seu papel é de um enganador brincalhão, que cria confusões super engraçadas. Nas minhas obras, o humor está sempre presente e a brincadeira do trompe l’oeil cria a parte de “confundir” aquele que olha.

Fernando Figueiredo: Conte um pouco do teu trabalho direcionado ao mundo coorporativo. Você pintou algumas telas em que o tema era uma grande empresa, como é a criação desse trabalho direcionado?

Sônia:Tudo começou com a primeira encomenda, chama-se CommissionedArt nos EUA, com um superintendente americano que estava em uma empresa brasileira na época. Aprendi muito com ele. Depois de alguns anos e muitas empresas importantes, criei um conceito bem simples: fazer no máximo 2 projetos corporativos num ano (ele é extremamente estressante e consome muito do meu tempo em pesquisa, além de me consumir mentalmente também) e ter antes de mais nada um briefing da empresa. A partir daí, vejo se é possível, datas. O que me entusiasma muito são os dossiês que faço, explicando (por causa da simbologia que uso nas obras) cada imagem correspondente a cada fato, a cada ideia que eu queria passar. A empresa que se aproxima de um artista, ganha em sofisticação algo que só a arte pode dar, além de ver a sua imagem se perpetuar numa obra de arte.

Fernando Figueira: Quais são os artistas que você se referencia ou que admira?

Sônia:Bem abrangente esta pergunta.Vamos ao mais óbvio: Salvador Dalí, Magritte, Paul Delvaux. E aos nem tanto (embora a história da “lembrança do passado” explique melhor) como Vermeer, Hopper e Veláquez.

Fernando Figueira: Recentemente você lançou uma série de técnicas mistas, o que significa isso, o que é este trabalho?

Sônia: Na verdade esta é uma ideia antiga da época que comecei a trabalhar nos Estados Unidos. Percebi que havia um hiato entre os meus originais em linho e as peças seriadas e que muitas pessoas gostariam de ter uma obra original e não queriam ao mesmo tempo algo automático como uma obra seriada. Achava que estava no caminho certo (desenvolvendo as técnicas mistas) mas mesmo assim consultei donos de galeria e críticos de arte para formar um conceito final. Partiu de sugestão deles o número (15) e o fato de cada uma ter um nome e não ser numerada. Explico melhor: são 15 obras para cada imagem, ou fundo, sendo que para o comércio são 14, pois ficarei com uma de cada e como cada uma tem uma imagem diferente, um “momento” diferente, isto a torna uma obra original e não haveria sentido em numerá-las! A técnica é mista, como o nome diz, porque uso diferentes linguagens numa só obra. Na verdade comecei a desenvolver esta ideia há mais ou menos uns dois anos atrás e ela vem evoluindo. Mais para frente pretendo acrescentar algo novo, como colagem, por exemplo. Por hora, uso o fundo digital (de uma obra minha já feita) e acrescento imagens pintadas à óleo, na mesma técnica e com as mesma tintas, diluentes, glacis… que uso nos meus originais em linho. O fantástico desta tela especial que uso, é que ela aceita perfeitamente tanto tinta acrílica, como à óleo. Frisei a palavra acrescento, pois as pessoas confundem esta minha técnica com o “embellished” ou “enhanced” que é uma técnica americana onde o artista pinta em cima do que já está impresso. Eu crio novas imagens, novas situações.

Fernando Figueiredo: Você tem através dos anos investido em licenciamento de produtos e entrando em ramos diversos, sempre procurando o top de cada linha, recentemente você lançou uma coleção de jóias, pode nos falar um pouco de como foi desenhar essa coleção?

Sônia:Tenho me empenhado em fazer o que a Sabina Libman nomeou tão bem, como “arte aplicada”. O universo de pessoas sofisticadas que querem ter peças especiais assinadas por artistas em suas casas é grande e crescente. Começamos com os cristais, porcelanas e agora estou desenvolvendo os protótipos para peças de mobiliário, o que está sendo uma verdadeira viagem. Aliás, não dá para criar nada se não for com alegria e paixão. A primeira coleção de jóias foi ao mesmo tempo um grande desafio (não totalmente dominado) para alguém que milita há anos no mundo bidimensional. Só a partir do momento que visualizei a jóia como uma pequena e delicada escultura feita com material nobre, é que consegui desenvolver o trabalho. Este ano lançarei uma nova coleção na Corsage, que me convidou e acredita que eu sou uma artista que pode ir além da obra flat.

Fernando Figueiredo: Para encerrar, em que você está trabalhando agora?

Sônia: Muita coisa! As vezes penso que estava me sentindo meio aprisionada e agora que me soltei, não consigo mais parar. Estou desenvolvendo uma obra para o Unicef (fui convidada para retratar os 60 anos dela no Brasil); vou tematizar (inteirinha) uma suíte do hotel Sheraton; estou preparando (para o ano que vem) uma exposição em pequeno formato, com obras inéditas, tanto na imagem como no formato, incluindo uma instalação ou cenário, como prefiro chamar; vou fazer em setembro uma exposição de técnicas mistas em Brasília na Caixa; além de uma outra série de pequeno (realmente pequeno) formato em forma de cartas de baralho e caixas de fósforos em óleo sobre linho. Ah! A palavra escultura também entrou para o meu universo.

 

Eu acredito na divulgação global do artista e portanto apesar de não ter nada a ver com a coleção de jóias ou dos produtos licenciados, acho que vale a pena mostrar tudo o que o artista tem porque mostra o quão sério o artista é. Um grande problema que existe no mercado de arte, acredito eu que um dos grandes motivos da volatilidade da valorização os artistas, é a não continuidade, um artista que pinta uma série boa de telas e para ou não divulga o seu trabalho, por isso o mercado tem dificuldade de aceitar novos artistas ou acreditar que alguém chegou para ficar. A Sônia está consolidada no mercado e as Jóias, produtos e mesmo o restaurante que está para sair são fortalecedoras da Marca Sônia Menna Barreto e como um todo fortalecem a pintura porque mostram que não é um golpe de sorte ou um talento sem direcionamento, portanto não tenho nenhum problema que fale nesses assuntos livremente.